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O Brasil é campeão do mundo em partos cesarianos", afirma a epidemiologista Silvana Granado Nogueira da Gama, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Foi essa a constatação que motivou o trabalho de investigação dos fatores médicos, econômicos e culturais que levam às altas taxas de partos operatórios no país, sobretudo em serviços privados. O estudo foi composto de entrevistas e consultas aos prontuários de 437 grávidas atendidas em duas unidades do sistema de saúde complementar do Estado do Rio de Janeiro.
Para selecionar as instituições participantes, o critério foi, além do grande volume de partos, a clientela heterogênea das unidades, que atendem mulheres de diferentes classes sociais, faixas etárias e níveis de escolaridade. As entrevistas foram realizadas em 2006 e 2007 e abordaram todo o período de gestação das entrevistadas, questionando-as sobre sua preferência pelos tipos de parto no início e no final da gravidez, comparando ao parto efetivamente realizado.
No relatório encaminhado à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), embora 70% das gestantes não tenham manifestado preferência pela cesariana no início da gravidez, 90% delas tiveram esse tipo de parto. "Essas taxas não parecem se relacionar a fatores exclusivamente médicos, mas também a questões socio-econômicas e culturais", explica Silvana.
Segundo a pesquisa, entre os motivos para a opção pela cesariana estão o medo de sentir dor no parto normal, a preferência do parceiro, o histórico familiar, a experiência de partos anteriores e o desejo de ligar as trompas.
A justificativa para a mudança incluiu principalmente complicações como hipertensão, circular de cordão e alto peso do feto. "Mesmo nesses casos, nem sempre a cesárea é indicada", adverte a pesquisadora. A análise apontou que 91,8% das indicações de cesáreas foram inadequadas, de acordo com as observações no prontuário das pacientes.
Os resultados indicam que, na maioria das vezes, os médicos não buscam técnicas alternativas. “Por outro lado, o grande número de mulheres que buscam a cesariana para obter a laqueadura marca a necessidade de ampliar o acesso a outros métodos contraceptivos e à informação sobre outras formas desse procedimento".
Outro dado observado foi o elevado índice de internações precoces das gestantes, o que ocasiona uma maior taxa de intervenções médicas. Em muitos casos, a cesariana foi feita sem tentativa de parto normal e apenas 8% das mulheres submetidas ao parto operatório haviam entrado em trabalho de parto. "Com a banalização da cesariana, as mulheres não estranham mais que os médicos indiquem tantas cirurgias e acabam abrindo mão de seu desejo inicial por um parto normal e concordando com a realização da mesma", comenta.
A pesquisadora alerta ainda que a literatura médica assinala a possibilidade de complicações maternas e neonatais associadas à realização de cesarianas sem indicações obstétricas reais. A conscientização e maior informação das gestantes é estratégica para a reversão desse quadro e esta é a próxima etapa de pesquisa, que iniciará um trabalho de incentivo ao parto normal em Belo Horizonte.
Fonte: Associação Paulista de Medicina
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